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03/04/2009 03:01
A morte
Sem delongas. Jorge Borge morreu. Morreu por falência múltipla dos sentidos. Jorge Borge não faz mais sentido. Criado em uma intenção, morto em outras. Foi da ousadia à melancolia. Uma travessia, uma vida, uma personagem que nunca voltou de onde partiu. Não é triste não, é necessário. Jorge era um texto, uma frase, e raras vezes uma vida. Jorge abdicou de falar, pois sua fala estava pesada e abdicou de existir, pois sua existência era um fardo. Não foi suicídio, foi uma desintegração. Assim, puff, desapareceu, sumiu, sem vestigios...
Jorge esqueceu do Jorginho, menino feliz, esqueceu dos seus pequenos devaneios e esqueceu de abraçar a sua mãe. Jorge esqueceu o que era abraço. Jorge ficou triste, e não há palavras que substituam um bom abraço. Jorge olhou o mundo com os olhos alheios. Quando não viu mais sentido em uma manhã ensolarada, seu peito doeu, e ali identificou-se sua doença. Mas era uma doença?
Jorge foi e deixou o que? O vazio, não aquele que deixa tudo sem sentido de existir, mas o vazio que nos rejuvenesce para uma nova observação de tudo. Adeus Jorge, por breves momentos pensei que fostes a borboleta, mas eras apenas o casulo.
Mas não se importem, Jorge não tinha muito a vos oferecer. Fernando Pessoa, Saramago, Rubem Alves, Janus Korczack, Gabriel Garcia Marquez, Nietzsche, Manoel de Barros, Fellini... esses sim tem muito a oferecer. Já são tantaas coisas para lermos, vermos ouvirmos... esqueçam Jorge Borge, só vai ser um a mais a tomar-lhes o tempo. Qualquer um dos citados acima são mais valiosos para o seu tempo que também é muito valioso.
Jorge se foi. Apagou-se pela longa distância entre suas palavras e seus atos. Ele sabia que por mais puro que fosse um coração, se ele não tivesse coragem nem encontrasse meios de exercer sua pureza, seu sangue nunca bombaria a bondade por todo o seu corpo. Foi isso, o coração de Jorge estava se envenenando. Tudo o que o machucava era um pouco mais de veneno em seu coração.
Acho que é isso. Jorge morreu porque não tinha mais seu coração. Ele batia sincopadamente pelo ritmo do mundo.
enviada por Jorge Borge
19/02/2009 00:03
Cânticos em busca de um lugar no mundo
DA FALSIDADE
Mande fazer as asas mais bonitas.
Chamei todos para assistirem ao meu vôo.
Pulei do topo da montanha,
Abri as fartas asas
E fui caindo, caindo,
Até cair no mar e sumir.
Enquanto isso, na floresta ao lado
Pássaros deixavam o ninho
Para voar manhã afora...
DA INGENUIDADE
O meu canto, que quer alegria
Quer o luar, quer a noite mais bonita.
Que melodioso, segura o passo da minha vida.
Um olhar que penetrasse minha alma,
Sempre aberta e sempre à espera
De alguém que reconhecesse o meu sorriso
e colhesse os frutos de minha natureza.
DA SINCERIDADE
Estou por completo
Não há o que mostrar nem o que esconder
Sou
O que meu coração decidir.
DA PUREZA
O campo vazio
Onde extravaso meu amor verdadeiro,
O amor alado.
Junto de ti, toda noite era eterna.
Eu olhava para você
Você para mim
E nós para a natureza
Para que haveria de desviar os meus olhos?
DO AMOR
Um resvalar de mãos que enternece o mundo.
Um resvalar de mundos que amacia as mãos.
Mãos macias para um mundo melhor,
Mais carinhoso, tolerante,
Onde poeminhas como este
Têm vontade de amar.
Cânticos em busca de um lugar no mundo
enviada por Jorge Borge
06/01/2009 02:27
História sem fim?
Tem dias ou épocas em que me sinto outros. São os múltiplos seres que vivem dentro de mim. Um desses seres, em uma madrugada silenciosa, fez uma história, e nunca mais voltou para terminá-la. Talvez o final seja esse mesmo, não sei... Achei a história em meus arquivos e resolvi postá-la sem mexer em nada. Aqui vai:
Capítulo 1 O início da viagem
Acordo de noite com o barulho da chuva. Chove em meu peito, chove em meus sonhos, chove em minhas lembranças. Tudo é chuva. No mar que se forma, o gosto não deixa de ser salgado. Um avião que passa oferece-me uma carona. Eu nado desconfortável, e aceito.
Voamos por cima de tantas coisas. Luzes são as primeiras coisas que vejo. Não sei se são estrelas, casas, faróis, de tão perdido que me sinto. O piloto (estamos em um aviãozinho antigo, aqueles de dois lugares, igual nos desenhos animados) vira-se para mim, com sorriso aventureiro. Tem o bigode farto e esbranquiçado, que juntamente com o espalhafatoso óculos de vôo e o capuz marrom dão-lhe um aspecto precioso. Aponta para as casinhas, para os pequenos córregos, para uma pequena fazenda, para o moinho, sempre com comentários interessantes. Parece conhecer a geografia do interior humano.
Começo a rir, sabe-se lá porque. Definir é matar. Fico sorrindo junto com o piloto. A vista é fantástica. Passamos por dentro de uma nuvem. Tudo branco. Estendo minha mão e pego um pedaço. Guardo no bolso. Mas sinto-a se desfazendo. Besteira minha querer guardar um pedaço de nuvem. Eta mania de querer possuir as coisas! O vento é uma delícia, leva tudo que de triste havia em mim.
O céu fica escuro. Alguns trovões. Eu fico com medo, mas o piloto novamente vira para mim, e o seu sorriso é o mesmo do começo da viagem. Ela desvia, entorta, gira, abaixa, levanta, sempre soltando gritos de vitória a cada novo obstáculo transposto. Meu medo passa, sinto-me dono dos ares. O piloto, como que lendo o meu pensamento, diz: Ainda não meu rapaz!, e salta. Seu pára-quedas abre e solta fitas das mais variadas cores. Eu fico gritando: Por favor, não vá, eu não faço a mínima idéia de como controlar isso!, ao que o piloto grita, já sumindo entre a névoa: Então vais morrer meu caro, o que é uma tristeza...
Pulo para o banco da frente. Quantos botões! Eu não tenho muita coisa a fazer a não ser tentar. Tento controlar o avião. Meus braços inexperientes doem, e parecem não agüentar os trancos. Não arrisco apertar botão nenhum, poderia suceder um desastre. Quero desistir. Largar o avião e deixar que se espatife no chão, tamanha é a minha desesperança naquele momento. Que tristeza! Solto os braços doloridos, e o avião vai caindo. Cai tão veloz, que eu enxergo somente manchas. Meu ouvido apita. Não passa nenhum filme com toda a minha vida. Vejo apenas um pedacinho: eu, menino, com um avião de brinquedo nas mãos, voando por sobre o jardim de casa, passando pela cozinha, pela sala, subindo as escadas e indo pousar na barriga de meu pai... Não me lembrava mais dessa cena. Fiquei comovido com a peculiaridade desse momento. Devia faltar muito pouco para que os momentos não mais existissem, pensei. Segurei novamente o controle, sem esforço, e pedi a ajuda da brisa amiga. Eu já enxergava o mar muito perto. Mas a queda não era inevitável. Fui puxando o controle, sem dores, sem cansaço, e o avião foi tomando prumo. Eu sabia que estava no comando. Avistei um campo onde pousaria. Tudo muito simples. Desde menino que eu sabia pilotar, só havia esquecido.
Capítulo 2 - Sem título
Pousei seguro, com um misto de alegria e solidão. Precisava ver alguém. Pulei do avião e fiquei sentado no gramado. Tudo tão bonito e tão sem ninguém. Que adiantava ter vivido tamanha aventura, se no final eu não teria ao menos um abraço verdadeiro? Eu não sabia onde estava, para onde ir, não sabia nada.
Começa a chover. Chove em meu peito, chove em meus sonhos, chove em minhas lembranças. Tudo é chuva. Antes que o mar se forme, pulo no avião e decolo. Vou seguindo, seguindo, seguindo, seguindo.
Já devia ter passado umas cinco horas, quando finalmente avisto uma casa. Pouso bem pertinho dela e vou caminhando. Bato três vezes na porta. Abre-me uma senhora, e duas crianças curiosas espiam ao fundo. Um menino e uma menina. Digo que estou sentindo fome e solidão. Entro. As crianças riem das minhas roupas sujas e em farrapos. Eu rio junto com elas. Isso já não é mais solidão. Sento-me à cadeira e a senhora oferece-me um café com leite quente e pão com queijo. Alimento e ternura, tudo que deveria satisfazer o coração de um homem.
Termino o pão, o café, e a senhora que até então arrumava algumas coisas na pia, pergunta o meu nome. Eu não me lembro, respondo. As crianças vêm em minha direção. Fazem mil perguntas: Quem é você? De onde você veio? Você tem um cachorro? Você vai ficar quanto tempo?. Digo que não tenho muitas respostas, mas que quero brincar. Elas saem e voltam com livros, brinquedos, massinhas, e passamos a noite brincando e inventando histórias. A velha senhora já dormia fazia tempo.
Acordo no chão, estou de costas e fico tentando entender onde estou. Olho para o lado e vejo as crianças dormindo. Sento-me e espio pela janela o sol que brilha forte. Uma jovem adentra a casa: Vó, vó, ontem eu tava com o vô lá na fazenda e... Ela pára de falar ao me avistar sentado no chão. Calma menina, é só um rapaz assustado que veio buscar abrigo..., diz a velha senhora saindo do quarto. A jovem me cumprimenta com um leve balançar de cabeça. Parece envergonhada. Eu também sinto muita vergonha, mas acho que nem deu para ver o vermelho do meu rosto coberto de sujeira. A jovem segue para a cozinha. A senhora sorri para mim e vai logo atrás.
Vou para fora, dou uma olhada no meu avião. Eu nunca havia notado que ele era amarelo. Fiquei ali, conhecendo-o melhor, e dentro dele encontro uma foto. É de uma menina linda, com um sorriso encantador. Ela está em uma paisagem bem rural. Parece estar com pessoas da família. Senti-me estranho. Parece que meu corpo recordara-se de algo que meu coração ou minha mente haviam escondido. Guardei a foto no bolso. Eu realmente não lembrava de muita coisa sobre mim antes do início da minha viagem. Talvez só aquela lembrança de menino que tive à beira da morte.
enviada por Jorge Borge
04/11/2008 01:23
A crise
Neste momento estou em crise. Talvez amanhã eu já acorde melhor. Sabendo que minhas crises acontecem em espasmos irregulares, quis aproveitar um desses espasmos para escrever.
Uma das definições de crise no dicionário: Período difícil na vida de uma pessoa ou de uma sociedade de cuja solução depende a volta a um estado normal. Voltar ao estado normal. Este pode ser o perigo, pois nem sempre o estado normal é o estado bom, mas apenas o estado ao qual estamos acostumados.
Quando estou em crise a rotina e seus estímulos me enjoam. Não quero acordar cedo morrendo de sono, não quero pegar ônibus cheio, não quero metrô cheio, não quero vozes robotizadas gritando em meus ouvidos que 70 por cento dos atrasos é culpa minha. Não quero nem olhar as bancas de jornal saturadas de notícias sensacionalistas, mulheres exibindo corpos ultra malhados em poses mega sensuais, sorrisos e mais sorrisos falsos, detalhes sobre a vida de pessoas que não dizem nada para mim, soluções para a minha vida ditas por pessoas que nunca ouviram uma palavra minha, repórteres e matérias inúteis que alimentam uma indústria podre. Principalmente nos dias de crise, isso eu não quero.
A crise é um sintoma. Não acontece por acaso. Por isso prestar a atenção nela é tão importante, pois ela traz consigo insatisfações que dizem muito da vida que levamos e da vida que queremos levar.
Acho que tudo começou no domingo de manhã. Acordei e como de costume fui para o violão. Na tv cultura estava passando o filme (ou uma série, ainda não sei) do menino maluquinho. Quando eu era pequeno eu gostava muito das histórias dele. Acabei vendo um pedaço do filme.
No filme, o menino maluquinho estava passando as férias em um sítio. Em dado momento ele conhece uma garotinha, e eles vão aproveitar o sítio juntos. Andam a cavalo, brincam no balanço, correm um atrás do outro, sobem na mangueira para comer manga, ordenham a vaca, entre outras coisas... Depois disso, aparece a mãe do menino maluquinho arrumando as coisas dele, pois as férias acabaram, ele têm de voltar para a cidade. Ao fundo da cena, vemos a cara da garotinha olhando triste pois sabe que seu companheiro vai embora. No final a garotinha dá um beijo de despedida no menino maluquinho e ele finge desmaiar. A família dele que o estava esperando para poderem partir, cai na gargalhada.
Foram essas imagens que abalaram o meu domingo. Acho que sei um pouco o porque elas me atraíram tanto: o contato com a natureza, a simplicidade das pessoas, a leveza de estar no mundo, as brincadeiras, o amor puro...
Eu tinha que ler uns textos da faculdade, uns textos técnicos sobre a teoria das cores, e quem disse que eu queria? Quem disse que dava? Enquanto estava com um deles na mão, ouvia o grito de crianças brincando na rua, ouvia a gargalhada de pessoas na casa atrás da minha, sentia o cheiro da chuva que estava por vir. Não dava, resolvi deixar os textos de lado.
Um passeio à casa de uma pessoa especial aliviou o meu domingo. Ficamos um tempo conversando no portão, enquanto ameaçava uma chuva, e meu coração tranqüilizou-se um pouco, pois eu tinha esperança naquele momento.
Mas voltando à minha casa, as cenas do filme borbulhavam em minha cabeça. Eu lembrava das cenas e pensava na minha vida em São Paulo. A vida tem tantas possibilidades. E se eu pegasse minhas coisas e partisse para morar em Minas Gerais, por exemplo, será que tudo não seria diferente? É verdade que eu nunca vou desembarcar de mim mesmo (acho que um dos heterônimos do Fernando Pessoa, o Bernardo Soares que diz isso), mas um ambiente novo poderia ser estimulador.
Às vezes sinto algo dentro de mim que quer estourar, a velha e eficiente metáfora do pássaro que quer fugir da gaiola. Acho que minha imagem de crise seria ele se debatendo nessa gaiola e eu sem saber como abri-la.
Mas como bom amante da vida e dos pássaros, não posso deixá-lo mais se debater assim. Tenho que arranjar um jeito de lhe abrir a gaiola!
Minha vida consistirá nisso: abrir não somente a gaiola do meu pássaro, mas a gaiola de todos os pássaros que se sentem presos e que não sabem como se libertar. Não que eu tenha todas as chaves, mas ao menos tenho disposição suficiente para procurá-las.
enviada por Jorge Borge
31/10/2008 01:31
Pedrinho
Foto do meu sobrinho recém-nascido.
Acho que todo homem que fere, que mata, todo homem que mente, que faz guerra, todo homem que destroí recursos humanos em sua ganância pelo maldito dinheiro, é um ser triste, que nunca soube olhar com amor para uma criança. É alguém que pensa ter controle do mundo, sem saber que lhe falta o controle básico de si mesmo.
Quem segura uma criança no colo, quem sente sua respiração calma, quem vê os olhinhos da criança se abrirem ao mundo pela primeira vez, quem sente sua mão tenra tentando apalpar as coisas, sabe que não podemos ser egoístas. Que o mundo também é delas. Que devemos olhar por elas.
Mas os adultos, seres graves e de egoísmo cristalizado, não conseguem olhar além da sua própria calçada. Constroem um mundo de adultos, tratando as crianças como seres inferiores, que não merecem preocupação na construção de um sistema social. E assim elas crescem em meio a um mundo que não lhes pertence, aprendendo logo cedo os gestos afetados dos adultos.
Que delícia ver uma criança em pleno gozo de sua liberdade. Correndo porque correr é gostoso, cantando porque cantar é legal, rabiscando pela simples alegria de ver a transformação do papel em branco.
Se não sabem como tratar uma criança, se não sabem que a melhor educação é feita com base no amor, e se nem ao menos se interessam por isso, que deixem as crianças em paz! Pois sempre tem um olho adulto para acinzentar tudo.
Sempre amei crianças, a agora que ganhei um sobrinho, senti com mais força a necessidade de lutar para que nossas crianças não abram seus olhinhos pela primeira vez enxergando um mundo de ódio e egoísmo.
Às vezes os homens me entristecem. Mas sempre há uma fagulha de esperança no sorriso de uma criança.
enviada por Jorge Borge
31/10/2008 00:33
Historieta
Existem pequenas histórias que ouvimos ao acaso, e que marcam a gente muito mais que romances inteiros de inúmeras páginas. São histórias que conseguem sintetizar de algum modo o jeito como somos, ou o jeito como queríamos ser. Não lembro onde ouvi essa historinha, só sei que sempre que lembro, vejo-me no lugar do garoto andando na praia. Bom, vamos à historieta:
Um garotinho vem andado pela praia. A areia está repleta de estrelas-do-mar. O garoto abaixa, pega uma e lança-a ao mar. Continua fazendo isso com todas as estrelas que encontra. Um adulto se aproxima do garoto:
O que você está fazendo?
Jogando as estrelas de volta ao mar. Se elas ficarem aqui na areia vão morrer. responde o garoto
Mas você não está vendo que a praia está repleta de estrelas? São muitas. Você acha que sua ação vai fazer alguma diferença?
O garoto se abaixa, pega outra estrela, e com ela em mãos olha nos olhos do adulto e diz:
Para essa sim!
E lança-a ao mar.
enviada por Jorge Borge
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